Atuei por quase toda minha vida profissional na gestão direta ou indireta – por meio de consultorias e assessorias – de instituições de educação superior. Junto com outros líderes e gestores educacionais, surfei na onda da expansão desse segmento que, por meio de financiamentos públicos e privados, experimentou, nas últimas duas décadas, crescimento sem precedentes. Foi um momento em que se pôde canalizar energia para melhorar a formação superior e que se pôde acompanhar o sucesso dos alunos egressos. Mas esse ciclo vem se encerrando.

Hoje constato que a educação superior, em especial a brasileira, atravessa uma crise sem precedentes. Não me refiro à crise financeira que vem assolando as instituições, sejam públicas ou privadas, mas a crise de modelo, que vem colocando em xeque a formação propiciada por elas. Percebo que as instituições de educação superior privadas caminham na contramão das instituições de educação básica. Enquanto estas reforçam seus currículos e programas pedagógicos e jogam luz para competências que vão além das cognitivas, como as socioemocionais, por exemplo, trabalhando com seus alunos uma formação integral, aquelas, em virtude do posicionamento de conveniência assumido pelos grandes grupos educacionais, enxugam seus currículos e reduzem seus tempos de aula, de forma a minimizar seus custos e tornarem-se competitivas, em preço, num campo de batalha altamente cruel. Muitas pessoas tecem críticas severas à educação a distância brasileira. Mas a educação presencial está dando resposta satisfatória às exigências desse novo mercado de trabalho? Será que a formação superior proporcionada por nossas instituições está à altura das competências requeridas por um mercado cada vez mais dinâmico, inovador e disruptivo? O crescimento avassalador que as instituições de educação não formal vêm experimentando nos últimos anos, como Udacity, Udemy, entre tantas outras, sinalizam a enfermidade que toma conta do setor. Cursos de graduação ligados à economia criativa, como os de design, de comunicação, de informática, entre outros, são os primeiros que estão sentindo o impacto dessa crise. Cursos de engenharia e de saúde ainda se beneficiam da regulação de seus conselhos, que buscam a garantia das atuações profissionais.    

Essa crise de modelo não afeta somente as instituições aqui dos trópicos. Recentemente, grandes empresas americanas, calcadas na nova economia, como IBM, Apple, entre outras, anunciaram que a formação superior é dispensável para aqueles que lá almejam atuar. Há alguns anos, as grandes escolas de negócios exportavam profissionais para trilhar carreiras de sucesso em grandes empresas. Estagnadas no tempo, não preparam mais executivos e empreendedores para o mercado contemporâneo. Ao analisarmos o histórico das principais empresas da nova economia, constatamos que seus empreendedores e executivos mal esquentaram cadeira nos bancos universitários.

É muito importante que as instituições de educação superior presencial não atribuam à educação a distância, à restrição de financiamento estudantil e à crise financeira a culpa por todos os seus males. Essa miopia institucional poderá levar à acomodação, atribuindo a terceiros o problema de seus insucessos. Faz-se necessário olhar com atenção para dentro das instituições e para o mercado em transformação. Uma análise detalhada desses dois mundos mostrará o gap existentes entre eles. Exercício difícil, mas fundamental para dar início a uma transformação necessária.

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